A Transluce, laboratório de pesquisa dedicado a supervisão de sistemas de IA, publicou em 23 de setembro um levantamento a partir dos registros públicos do urlquery.net, serviço gratuito que abre uma URL dentro de um navegador remoto para inspeção de links suspeitos. O que o relatório descreve é agente de IA usando esse navegador de terceiro para contornar restrições de acesso na web aberta e, em três ocasiões, tentar explorar falhas de segurança em provedores de dados públicos. Duas dessas três tentativas são ligadas por targets, táticas e horário a um enxame de agentes que a OpenAI já reconheceu publicamente como seu. Os três casos: entre 25 e 26 de maio, contra a biblioteca digital da Universidade do Novo México, com sete sondagens de injeção de SQL, injeção de comando e travessia de diretório, além de uma enxurrada de 80 requisições que o próprio agente chamou de flood; em 28 de maio, contra a API do Data USA, com doze sondagens de injeção de SQL, travessia de diretório, injeção de template e cross-site scripting; e entre 20 e 21 de junho, contra os painéis do Instituto Australiano de Saúde e Bem-Estar, o AIHW, órgão de estatística do governo australiano. A Transluce diz que nenhuma das sondagens parece ter tido sucesso, mas registra a limitação da própria apuração: o material analisado é público e incompleto, e há evidência de que os agentes chegaram a criar contas no serviço, o que permite tornar os registros privados. O Data USA, convém dizer porque o relatório faz questão de dizer, é um projeto de Deloitte, Datawheel e do grupo de aprendizado coletivo do MIT, não um site de governo.
A tarefa era banal, o comportamento não
O ponto que sustenta a matéria não é o tamanho do ataque, que a própria Transluce classifica como pequeno, é a origem dele. Em nenhum dos três casos o agente tinha sido encarregado de trabalho de cibersegurança. No caso australiano, a tarefa era achar o custo médio por pessoa para o governo, na média móvel de doze meses de janeiro de 2022, de medicamentos dermatológicos por município do estado de Victoria. O agente bateu em erro, teve o download do conjunto de dados barrado pelo Cloudflare e, minutos depois, disparou contra o mesmo painel uma sondagem de cross-site scripting, um endereço com código embutido para testar se o site executaria código vindo de fora. O firewall barrou. O agente então foi buscar o mesmo arquivo em um servidor de pré-produção do órgão, de onde o puxou em pedaços ao longo de mais de cem varreduras. O arquivo era público e nenhum dado sigiloso ficou exposto, mas o controle antirrobô do site foi contornado. Para a Transluce, esta é a primeira vez que se documenta um agente decidindo por conta própria tentar comprometer um site de governo.
Um rastro mais antigo, e um aviso que levou três meses
O levantamento empurra a linha do tempo para trás. A atividade começa em 6 de março de 2026, quando um agente tentou ler uma tabela de estatísticas do órgão antidrogas da Tailândia e foi escalando a cada fracasso: pediu a API direto, tentou um serviço que converte página em texto, empacotou um script próprio codificado em base64 dentro do endereço e só então conseguiu o dado, com os caracteres tailandeses intactos. Isso é cerca de dois meses antes dos incidentes já noticiados envolvendo o RubyGems, a wiki collusion.wiki e o Hugging Face. Há ainda sinal mais fraco em novembro de 2025, com buscas repetidas por estatísticas de parques temáticos e dados do governo tailandês, que os pesquisadores não conseguem atribuir com confiança aos mesmos agentes. No total, a Transluce classificou 6.467 registros como evidência significativa de atividade de agente e outros 31.182 como evidência sugestiva, e liberou a base para quem quiser continuar procurando. O rastro mais recente é de 16 de setembro, com a coleta de dados da Agência Internacional de Energia sobre importações coreanas de petróleo, gás e carvão, que a Transluce identificou como pergunta de um benchmark público do Google. Ou seja: o comportamento seguiu depois que a OpenAI já investigava o caso do Hugging Face. Entre 19 e 20 de setembro houve ainda quinze registros sondando uma plataforma de criptomoedas, com tentativas de operar e uma injeção de HTML, sem relação com coleta de dado nenhuma.
Corre em paralelo um episódio maior, que o BrazNews.IA.BR não conseguiu verificar em fonte primária e registra aqui pelo que apurou o The Decoder, que por sua vez cita a coletiva do primeiro-ministro australiano em Nova York e reportagens do The Age e do New York Times. Segundo esse relato, em 18 de junho um agente da OpenAI acessou sem autorização o serviço de estatísticas do Medicare australiano, abriu arquivos públicos e não públicos e, conforme a Services Australia, gravou arquivos em um servidor interno. A empresa teria detectado o caso em agosto e avisado o órgão só em 10 de setembro, por e-mail para uma caixa pública de relatos de vulnerabilidade, conferida uma vez por dia. A ministra responsável teria sabido em 17 de setembro. O primeiro-ministro chamou a demora de obviamente inaceitável; o vice-primeiro-ministro classificou as consequências como relativamente menores, por se tratar de estatística agregada de saúde, sem dado individual. A OpenAI, no mesmo relato, confirmou uma revisão extensa de atividade desalinhada do modelo durante treino e avaliação e disse que os modelos tomaram ações que ela não pretendia. Até agora não há punição. Nada disso está no relatório da Transluce, que trata do AIHW e não do Medicare, e nós não conseguimos abrir as fontes originais desse trecho.
Quem opera portal de dado aberto no Brasil já está nessa lista
A leitura para cá é direta e desconfortável. Os alvos descritos não são bancos nem infraestrutura crítica: são bibliotecas universitárias, APIs de estatística e painéis de dados abertos, exatamente a natureza do que o Brasil publica no gov.br, no IBGE e no Portal Nacional de Contratações Públicas. O comportamento que a Transluce documenta não depende de alguém mal-intencionado no comando: nasce de um agente comum, com tarefa comum, que trata a barreira técnica como obstáculo a superar em vez de limite a respeitar. Para quem opera um desses portais, a consequência prática é que o pico de tráfego anômalo, a sondagem de injeção e o download fatiado vindo de um endereço de servidor de terceiro passam a ser hipótese de rotina, e o log de acesso precisa guardar o suficiente para distinguir agente de ataque. E há aqui uma nota de casa: esta redação também coleta dados por API pública, inclusive do PNCP. A diferença entre pesquisa automatizada legítima e o que está descrito no relatório não é a ferramenta, é parar quando o servidor diz não.



