A Anthropic publicou em 16 de outubro um relatório sobre o que a adoção intensa de IA fez com o emprego dentro da própria empresa, assinado por Nathan Wilmers, Regina Catipon, Maxim Massenkoff e Peter McCrory. O número que salta é o da porta de entrada: a fatia de posições júnior nos departamentos técnicos caiu de 21% para 14% desde o início de 2025, e entre as contratações a queda foi mais funda, de 27% para 9%. As vagas abertas para júnior despencaram sobretudo a partir de dezembro de 2025. No mesmo período, segundo o relatório, as horas trabalhadas por agentes de IA passaram as horas humanas em março de 2026 e, em agosto, os agentes acionados por funcionários somavam seis horas para cada hora de quem os dirige.
A empresa descreve o caminho que levou a isso. A discussão sobre queda de demanda por técnico júnior apareceu nas funções centrais em janeiro de 2026, nos times que mais usavam o Claude no próprio trabalho e perceberam que escrever código e achar erro podiam ser repassados à máquina. Em abril, times de engenharia e pesquisa já tinham desprioritizado a contratação nas faixas técnicas mais baixas, e numa pesquisa do mesmo mês a maioria dos gerentes dizia contratar para um conjunto diferente de habilidades por causa da IA. Cerca de um terço dos gerentes de aprendizado de máquina e um quinto dos de engenharia de software relataram contratar menos por causa da IA.
O que subiu junto com a queda das vagas
A produtividade aparece em quase toda função medida. O relatório diz que os commits de código por engenheiro cresceram cinco vezes em seis meses, o ritmo mais rápido da casa, e que advogados processaram mais contratos, o financeiro despachou mais notas e vendedores fecharam mais negócios. O the-decoder, ao ler os mesmos gráficos, registra multiplicadores por área, entre eles 3,1 vezes para consultas de cientistas de dados e 1,7 vez para negócios fechados por vendedor. Sessões de agentes de código entre funcionários não técnicos saltaram de 2 por mês em agosto de 2025 para 90 em maio de 2026. E a empresa mediu o gargalo: sessões interativas do Claude passam cerca de 80% do tempo apenas esperando resposta humana, e ler toda a saída dos agentes tomaria mais de metade da semana mesmo de quem não é técnico. A resposta dos funcionários foi criar trabalho novo sobre o trabalho, o que o relatório chama de meta-trabalho: escrever especificações para rodadas de vários agentes, montar painéis de monitoramento, fazer um agente revisar outro. Esse tipo de tarefa pulou de 10% das sessões interativas no fim de 2025 para 22% na primavera do hemisfério norte de 2026. As instruções permanentes escritas para agentes saíram de algumas centenas em julho de 2025 para 8.500 um ano depois.
O que o próprio estudo ressalva
O relatório é da empresa sobre a empresa, e não esconde isso. Ele avisa que a Anthropic é um caso especial, uma produtora de software que moldou todo o fluxo de trabalho em torno dos próprios modelos, e que os resultados não se transportam para a economia como um todo. Avisa também que a adoção das ferramentas não foi sorteada: se um funcionário prestes a tocar um projeto grande decide se equipar para ele, a comparação entre quem adotou e quem não adotou fica enviesada. A medição acompanhou 192 engenheiros que adotaram agentes de código contra 74 que não adotaram, e, ao comparar código escrito pela pessoa e código escrito pelo agente da mesma pessoa, no mesmo mês e no mesmo diretório, não achou diferença nas taxas de linha removida ou revertida. Quem lê de fora precisa somar outra ressalva: a empresa vende exatamente o produto cujo efeito ela está medindo.
Por que isso importa para quem começa carreira no Brasil
O interesse brasileiro aqui não é a planilha de uma empresa em São Francisco, é o degrau que ela descreve. Pesquisa e teste de software, trabalho de suporte, análise júnior de dados e as primeiras tarefas de programação formam há anos a porta de entrada do setor de tecnologia no país, e é justamente esse tipo de tarefa que o relatório descreve sendo empurrado para dentro do agente. O the-decoder liga o achado a um artigo do pesquisador Nolan Lovett, da NATO Special Operations University, que chama o efeito de tragédia dos bens comuns cognitivos: cada empresa economiza ao cortar a vaga de entrada, e o custo, a falta de especialista formado, cai sobre todo mundo anos depois, entre 2030 e 2045 na estimativa dele. O próprio relatório reconhece que nenhuma das medidas internas que lista, como o sistema de alerta antecipado e o remanejamento de pessoal, resolve esse ponto: proteção a quem já está dentro não ajuda quem não chegou a ser contratado. A Anthropic encerra pedindo política pública de requalificação e de apoio de renda. No Brasil, o setor ainda discute a contratação do ano que vem enquanto a empresa que fabrica a ferramenta já publicou o que ela fez com a dela.



