A OpenAI baniu um conjunto de contas do ChatGPT com origem provável na Rússia e publicou o relatório de como a operação funcionava. Os operadores usavam VPN para contornar o bloqueio de acesso ao serviço a partir do território russo, escreviam os comandos em russo e pediam textos em inglês, com instrução explícita para esconder qualquer pista linguística de que fossem russos.
O alvo do esforço era dar audiência ao International Burke Institute, apresentado como uma comunidade de especialistas sediada em Israel, com site registrado em fevereiro de 2025. O ChatGPT não escreveu os artigos do site: gerava as postagens de rede social que apontavam para eles, no X, no LinkedIn, no Facebook, no Substack e no Telegram.
A fábrica de autoridade
O que sustentava a fachada era plágio. Numa amostra de 36 artigos atribuídos a especialistas do instituto e publicados entre setembro de 2025 e maio de 2026, 34 haviam sido copiados de outros lugares da internet. Um texto sobre o corredor econômico China-Paquistão, saído de publicação da Cambridge University Press e escrito por um professor emérito da Universidade de Bradford, apareceu no site assinado por outro nome, ligado à Universidade de Nottingham. Outro, do Migration Policy Institute, foi creditado a um nome da área de química de alimentos numa universidade australiana, com a mesma foto de uma página de palestrante de 2017. Em julho, o site ainda listava Francis Fukuyama e Noam Chomsky entre seus especialistas.
O produto central da fachada era um índice de soberania que colocava a Rússia em posição favorável e os países ocidentais abaixo dela. Os relatórios do índice miravam sobretudo quem critica a guerra na Ucrânia: França, Alemanha e União Europeia, além dos Estados Unidos. Um segundo operador criou logotipos para cerca de uma dúzia de canais de Telegram voltados a Alemanha, Estados Unidos, França, Polônia e Turquia, e pedia com frequência resumos em russo da atividade desses canais.
O tamanho real, e por que ele engana
O alcance foi pequeno. As postagens tiveram poucas visualizações e as contas oficiais do instituto, poucos seguidores. Os canais de Telegram ligados à operação chegaram a algo entre 10 mil e 20 mil seguidores cada um. Na escala Breakout, da Brookings, a OpenAI classificou o caso na faixa baixa da categoria três: presença em várias plataformas, com sinais iniciais de chegada a público autêntico. A leitura da própria empresa é a que interessa: o valor da operação não estava na audiência, estava na infraestrutura. Havia uma instituição com endereço, especialistas de fachada, acervo acadêmico republicado e um índice com aparência de metodologia própria, tudo pronto para ganhar escala depois. A IA entrou como peça de apoio, no trabalho repetitivo de divulgação, e foi justamente esse rastro que expôs o resto.
Para quem acompanha o setor do Brasil, o método importa mais que o caso. Nada ali depende de modelo de fronteira nem de orçamento grande: um site, textos alheios com assinatura trocada, um índice com cara de metodologia e postagens em escala. O idioma é a única barreira real, e é a mais barata de derrubar, porque foi exatamente esse o pedido que os operadores fizeram ao modelo. Convém guardar também o limite do relatório: ele descreve o que a OpenAI enxerga dentro da própria plataforma. Operação que rode em modelo de pesos abertos ou em serviço de outro país não aparece nessa contagem, e não há como estimar por aqui quanto disso existe.



