A Universidade Quinnipiac divulgou em 30 de setembro uma pesquisa nacional sobre inteligência artificial que ouviu 1.202 adultos nos Estados Unidos entre 24 e 27 de setembro, com margem de erro de 3,5 pontos percentuais para mais ou para menos, incluído o efeito de desenho. Diante de quatro opções sobre o ritmo do desenvolvimento, 47% escolheram desacelerar o desenvolvimento de sistemas poderosos de IA até que a segurança possa ser avaliada e 30% escolheram parar até que isso aconteça. Manter o ritmo atual ficou com 14%, e acelerar, com 5%. Somadas, as duas primeiras opções dão 77% a favor de pisar no freio, contra uma faixa de um dígito a favor de correr mais.
O restante do levantamento desenha um problema de confiança antes de um problema de tecnologia. Setenta e quatro por cento dizem ter pouca ou nenhuma confiança nos líderes das empresas de IA, sendo 45% nenhuma confiança. Noventa e um por cento consideram importante que os Estados Unidos estabeleçam salvaguardas para sistemas de IA, e 86% apoiam exigir que as empresas que desenvolvem IA cumpram padrões independentes de segurança, mesmo que isso desacelere o desenvolvimento. Oitenta e um por cento acham segurança mais importante que estar na fronteira da inovação. Cinquenta e três por cento esperam que a IA faça mais mal que bem no dia a dia, número que a própria Quinnipiac descreve como pouco diferente do que mediu em 30 de março de 2026.
Quem quer freio também quer ganhar da China
A pesquisa desarma a leitura fácil de que existem dois campos, um da corrida e outro da segurança. Sessenta e nove por cento consideram importante que os Estados Unidos acompanhem a China no desenvolvimento de IA, e segundo Chetan Jaiswal, professor de ciência da computação da Quinnipiac, 65% dos entrevistados sustentam as duas posições ao mesmo tempo: querem acompanhar a China e querem salvaguardas. Outro dado anda na mesma direção contraintuitiva: 52% dizem estar mais preocupados com o uso da IA por humanos para causar dano do que com agentes autônomos agindo por conta própria, que preocupam mais 33%. O medo dominante, nessa amostra, não é o da máquina que escapa, é o da máquina na mão de alguém.
Valorizar a competição não deve ser confundido com se opor a salvaguardas.
O dado que o Brasil deveria olhar é o do data center
Setenta e dois por cento dos entrevistados disseram que se oporiam à construção de um data center de IA na própria comunidade, e 21% apoiariam. Em março deste ano, na pesquisa anterior da mesma casa, eram 65% contra e 24% a favor, o que indica rejeição em alta no intervalo de seis meses. Tamilla Triantoro, professora de análise de negócios da Quinnipiac, resume que a IA enfrenta um teste de aceitação pública quando ganha endereço físico, e que conseguir apoio local para a infraestrutura pode se tornar um dos desafios mais imediatos do setor. Brian O'Neill, professor de ciência da computação da mesma universidade, acrescenta o paradoxo: ninguém quer o data center perto, todos querem o que ele oferece, e as pessoas associam esses prédios à IA e não ao resto dos serviços de nuvem que sustentam a vida cotidiana.
A leitura brasileira pede uma ressalva primeiro: esta é uma pesquisa americana, com amostra americana, e não diz nada sobre a opinião pública do Brasil, que ninguém mediu nesses termos. O que ela diz, e isso interessa aqui, é que a licença social para instalar data center está encarecendo no país que concentra a maior parte dessa infraestrutura. Quando a resistência local sobe lá, a pressão por sítios migra para onde a energia é mais barata, a matriz é mais limpa e a oposição é menor, e é exatamente com esse argumento que o Brasil tem se oferecido ao mercado. Vale guardar o número de 72% como aviso de duas pontas: ele é a oportunidade comercial brasileira e também o roteiro do conflito que chega depois, quando o prédio tem endereço, vizinho, conta de água e de luz.



