O Google lançou o Gemini Enterprise for Legal, pacote voltado a escritórios de advocacia e a departamentos jurídicos de empresas. O anúncio é assinado por Thomas Kurian, CEO do Google Cloud, e o produto sai em preview junto com uma versão equivalente para serviços financeiros. Saúde e ciências da vida aparecem como as próximas da fila.
A estrutura tem quatro partes. Skills, que são pacotes de instrução e contexto para tarefas específicas, como revisão de contrato, criação de playbook e varredura regulatória. Conectores MCP para os sistemas onde o trabalho já mora. Agentes que executam a tarefa em vez de apenas sugerir. E um ecossistema de parceiros de implantação, entre eles Accenture, Deloitte e KPMG. Por baixo de tudo, um painel de governança com isolamento de dados, controles como VPC e CMEK, e a exigência de que cada resposta venha com citação rastreável até a fonte.
A lista de conectores diz mais que o discurso
Estão nela iManage e NetDocuments, de gestão documental; Docusign, no ciclo de contratos; Everlaw e RelativityOne, de descoberta eletrônica e litígio; Thomson Reuters HighQ; o CourtListener, do Free Law Project, com decisões de tribunais federais e estaduais americanos; e a Courtroom5, com regras processuais e cálculo de prazos. No campo de IA jurídica especializada aparecem Harvey, Solve Intelligence e Legora. O Google afirma que o acesso herda as permissões e as barreiras éticas já configuradas em cada sistema, em vez de reconstruí-las do zero.
A observação do THE DECODER sobre esse tipo de pacote é justa e vale para todos os fornecedores: o que está sendo vendido são instruções prontas e conexões com fontes de dados. O modelo por baixo é o mesmo dos produtos comuns. A Anthropic já oferece plugins parecidos para o setor jurídico, e o próprio Google lista concorrentes de IA jurídica como conectores dentro da sua plataforma, o que diz bastante sobre onde cada um acha que está o valor.
O que trava isso no Brasil
Nada dessa lista fala português nem conhece o processo brasileiro. CourtListener e Courtroom5 são bases americanas. iManage, NetDocuments e Relativity são padrão de escritório grande, com presença aqui, mas longe de universais. Um departamento jurídico brasileiro que queira a mesma arquitetura vai precisar dos próprios conectores: para os tribunais eletrônicos, para o sistema de gestão que usa, para a jurisprudência que consulta. É exatamente a lacuna que empresas locais estão ocupando, e ajuda a explicar por que uma startup brasileira de contencioso conseguiu levantar US$ 100 milhões.
Fica um ponto de atenção para quem for avaliar a compra. O Google afirma que dados do cliente, playbooks, propriedade intelectual e saídas do modelo permanecem privados e não são usados para treinar ou ajustar seus modelos de fundação. É uma afirmação contratual do fornecedor, não uma verificação independente, e é o tipo de cláusula que precisa estar por escrito no contrato antes de qualquer piloto com material sob sigilo profissional.



